Estaleiros no sul: como Itajaí e Rio Grande viraram polo de construção naval
Se o eixo da indústria naval brasileira tivesse endereço fixo no mapa, uma boa parte dos pinos cairia entre o porto de Itajaí e os estaleiros de Rio Grande. Não por acaso: décadas de investimento em fornecedores locais, tradição em soldagem naval e proximidade com rotas de exportação criaram um ecossistema difícil de replicar.
Visitamos três estaleiros — dois em Santa Catarina, um no Rio Grande do Sul — e conversamos com sindicatos, fornecedores de alumínio naval e despachantes aduaneiros. O objetivo era entender o que sustenta o polo e o que ainda trava crescimento.
Itajaí e o litoral catarinense
Itajaí concentra estaleiros de fibra de vidro voltados ao mercado de lanchas e barcos de trabalho leve. A cidade combina mão de obra familiarizada com laminação, acesso a resinas e gel coats por estrada e uma rede de oficinas que faz retrofit de embarcações antigas. Durante a alta demanda recente, muitos estaleiros dobraram turno; em 2026, a maioria voltou a um ritmo sustentável, com foco em qualidade e prazo.
Balneário Camboriú e Itapema completam o corredor: marinas cheias geram demanda por manutenção, e manutenção gera demanda por peças moldadas localmente. Estaleiros maiores verticalizaram parte da produção — cockpit, console, estofamento — para não depender de fornecedor com fila de seis meses.
O gargalo citado com mais frequência é certificação: projetos que exigem homologação específica demoram porque faltam engenheiros navais disponíveis para acompanhar todas as obras simultâneas. A fila de projetos aprovados virou fila de execução.
Rio Grande do Sul e o alumínio
No Rio Grande do Sul, o perfil muda. Estaleiros de alumínio atendem pesca artesanal, trabalho portuário e embarcações de apoio. O estado exporta barcos menores para países da América Central e do Caribe — mercados que valorizam casco leve e motorização simples.
Rio Grande, cidade portuária, oferece infraestrutura para carregamento e documentação de exportação. Estaleiros do interior, por sua vez, competem em custo de mão de obra, mas sofrem com logística até o porto. Alguns montaram parcerias com transportadoras especializadas em casco completo sobre carreta extensível.
A soldagem de alumínio naval exige certificação específica. Sindicatos relatam envelhecimento da base de soldadores qualificados e dificuldade em atrair jovens para o ofício, apesar de salários acima da média industrial regional.
Mão de obra e formação
Escolas técnicas em Itajaí, Criciúma e Pelotas ampliaram vagas em construção naval, mas o tempo de formação não acompanha a demanda de curto prazo. Estaleiros criaram programas internos de aprendizagem — seis meses de oficina antes de tocar em casco de cliente — e isso reduziu turnover em algumas plantas.
Mulheres ainda são minoria nos chão de fábrica, mas aparecem mais em projeto, estofamento e gestão de produção. Duas fontes mencionaram equipes mistas com menos acidente de comunicação entre projeto e laminação — detalhe que parece óbvio, mas nem sempre é prática comum.
Exportação e próximos passos
Exportar exige casco que passe inspeção internacional, documentação em inglês ou espanhol e pós-venda acessível. Estaleiros que erraram no prazo de entrega perderam contrato e reputação; os que cumpriram ganharam recompra. O mercado interno continua sendo o principal cliente, mas a exportação funciona como válvula quando a demanda doméstica arrefece.
Para 2026, os gestores ouvidos não planejam megafábricas. Planejam otimizar layout, reduzir retrabalho e manter relacionamento com fornecedores que entregam no prazo. Em um setor onde atraso de gel coat pode parar a linha inteira, confiabilidade vale mais que promessa de desconto.
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